segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Como podem desconhecer o Sol?, JCdasNeves DN051003

Como podem desconhecer o Sol?

joão
césar
das neves

Daqui a um mês, Lisboa será inundada pelo Congresso Internacional da Nova Evangelização. Organizado em cinco grandes cidades da nova Europa, a nossa edição traduzirá um paradoxo. Primeiro vai revelar que Portugal, Terra de Santa Maria, é endemicamente cristão. Mas também mostrará como a nossa cultura dominante ignora a verdadeira realidade da Igreja. Hoje a Igreja é vasta, activa, bem visível e, apesar disso, ignorada. Os jornais que sabem tudo, a rádio e televisão que tudo dominam, falam muito da Igreja e desconhecem em absoluto o que ela seja.

Os cristãos verdadeiros, de muitos modos e em muitas condições, vivem uma coisa de que o mundo nem suspeita. Esses mostram mesmo a sério o que é a Igreja. Constituem, em si próprios, nas alegrias e dores quotidianas, a Igreja viva. Nos obstáculos como nas rotinas, no emprego e em casa, são Igreja. Os cristãos vivem uma coisa preciosa, que o mundo desconhece.

A paz interior, a alegria profunda e transbordante dos verdadeiros fiéis, é isso a Igreja. O conforto contínuo da vida entregue, não a um ideal elevado, a uma tarefa grandiosa, a um cargo de responsabilidade, mas a uma pessoa, Jesus Cristo, que acompanha cada momento e cada emoção. Fazer todas as coisas, das menores às decisivas, com os olhos postos no Céu. É isso a Igreja.

A satisfação plena de pertencer à mais antiga, vasta e influente instituição de todos os tempos, a única verdadeiramente global, que mudou e muda impérios, transforma nações e consola os pobres. O alento ímpar de ser companheiro de tantos colossos de santidade, que povoam todos os séculos e locais com a sua humildade e zelo. O contentamento permanente de participar de um povo que participa da eternidade, mesmo antes de ultrapassar a morte. É isto a Igreja.

Apesar de não saberem o que é a Igreja, falam todos muito de Igreja. Discutem a sucessão do Papa e a falta de vocações, comentam atitudes dos padres e temas teológicos, ralham com a Inquisição e as Cruzadas.

Depois entrevistam alguém que se diz cristão e pensam confirmar o que afirmam. Mas o que dizem nada tem a ver com a Igreja. É como uma reportagem sobre chocolate que só trate do papel de embrulho. É como um relato de futebol limitado às emoções dos intervalos. É como julgar Portugal pela escravatura do século XVI ou os massacres na guerra colonial.

Aquilo que ouvimos acerca da Igreja é, na esmagadora maioria do tempo, oratória pomposa sobre papel de embrulho e intervalos.

Falta sempre olhar para a sua única realidade. Nem notam que, se fosse assim, seria incompreensível a incomparável vastidão, incrível influência e surpreendente perenidade da Igreja.

O pior de tudo é que não sabem que não sabem. O pior de tudo é que acham que essas questões de intendência, mal-entendidos de corredor e excepções históricas são mesmo a única Igreja. E ficam cegos para a maravilhosa realidade do estado de graça, da comunhão fraterna, da vida eclesial. Pior, irritam-se quando se fala dela. Na sua "tolerância", aceitam todas as doutrinas, menos esta.

Mas a Igreja não é só para alguns, não está fechada sobre si, não pretende esconder o tesouro. Ela é sempre aberta, acessível em qualquer local, missionária por vocação.

Todos os povos participam da gloriosa fecundidade que jorra da Igreja. Milhões de pobres e humildes, de todas as classes, vivem quotidianamente a frescura do êxtase da Igreja. Só é preciso olhar. Só é preciso querer. Veremos isso em Novembro.

Vivemos num tempo científico, na era da informação, que não vê a magnificente realidade que tem diante de si. Pior, que esqueceu o que sempre soube.

Este é o drama arrepiante que penetra o próprio mistério da Igreja. Pode desconhecer-se o sol? Pode o ar ser estranho? "A Luz veio ao mundo, e os homens preferiram as trevas à Luz, porque as suas obras eram más." (Jo 3, 19)

No entanto, a vida coloca a todos, em cada momento, aquela questão vital de que a Igreja é a resposta.

Mas como sabemos desde o princípio, só quem tem ouvidos para ouvir é que ouve.

naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt