quinta-feira, 11 de março de 2004

The passion of the Christ

Era preciso descer a tanto sangue

Estreia hoje nas salas de cinema portuguesas, as primeiras da Europa, o filme "The Passion of the Christ" (A Paixão d'O Cristo' )de Mel Gibson. Um filme que, à sua frente e atrás de si, vem rodeado de uma polémica intensa que entre nós também já começou.
Ontem, entre as 16 e as 19 horas, por iniciativa da Universidade Católica realizou-se uma ante-estreia do filme seguido de comentários e debate pelos Professores João Carreira das Neves (biblista) e João César das Neves (economista).
Quero, antes de mais, agradecer de todo o coração a iniciativa do capelão da Universidade Católica, Padre Hugo Miguel, que fez desta antestreia um acontecimento na Univeridade e em Lisboa e, em particular, a sua gentil generosidade que me proporcionou a possibilidade de ser um dos privilegiados espectadores (diria mesmo, participantes).
Nesta subtil diferença entre espectador e participante reside a diferença com que se olha ou vive este filme ou esta experiência pessoal. Dependendo da nossa atitude, assim se compreende a diversidade e, mesmo antagonismo de reacções que o filme provoca.
Não sou, nem pretendo ser crítico de cinema. Falo contudo do que sei, da experiência pessoal de quem participou num tempo intenso -que tem a duração da projecção de um filme - de confronto com uma visão dos acontecimentos históricos que, não só mudaram o curso da Humanidade, mas, sobretudo, foram decisivos para o significado da minha existência hoje, quase dois mil anos depois.
É esta atitude que Mel Gibson nos pede quando a projecção do filme começa com Isaías, 53, 4 e 5:

        "...tomou sobre si as nossas doenças, carregou as nossas dores;
          ...foi castigado pelos nossos crimes, esmagado pelas nossas iniquidades;
          o castigo que nos salva pesou sobre ele, fomos curados pelas suas chagas."

À medida que a acção se desenrola, entre a Agonia de Jesus no Horto até à madrugada da Ressurreição, quem se reconhece cristão, não pode ficar indiferente a tudo o que acontece - é-nos familiar e, mesmo, dolorosamente familiar. Não é um estranho que sofre padecimentos atrozes: é Alguém que julgámos conhecer bem, o que acontece é aquilo que afirmamos acreditar quando rezamos o Credo na missa de Domingo. A violência maior é que aqueles sofrimentos são as nossas dores, são causados pela nossa iniquidade.
Impressionou-me sobretudo, não tanto a violência, em si mesmo, ou a quantidade de sangue, mas a gratuidade da violência, o sem-sentido da violência. Poder-se-ia dizer a desumanidade do homem. Mas é isto mesmo que Cristo veio salvar: a ausência de sentido, o desumano que há em cada um de nós. Desse ponto de vista, não conheço modo mais eficaz de mostrar a desumanidade, a violência sem nexo, do que  a que Mel Gibson usou.
Mas toda esta desumanidade que reconhecemos em nós e que nos leva a começar cada missa com um gesto de reconhecimento daquilo a que a tradição da Igreja chama pecado é salva pelo sacrifício daquele Homem que, no caminho para o Calvário diz a Sua Mãe: "Eu reconstruo todo".
O artigo do Público que junto, intitula-se com uma frase que ouvi ao Padre Carreira das Neves: "Era Preciso Descer a Tanto Sangue?"
A minha resposta pessoal, que parte do reconhecimento deste filme como uma oração, uma via-sacra (no dizer do Padre João Seabra, durante o debate que se seguiu) é que a visão deste sangue torna-me mais consciente da dimensão e gravidade do pecado, por um lado, e da grandiosidade do homem (de nós todos) que mereceu tão grande sacrifício.
Por isso, estou profundamente grato a Mel Gibson, por ter conseguido passar para cinema uma forma de conhecer melhor a Jesus Cristo. No nosso caminho pessoal de O conhecermos e amarmos melhor, este filme é uma contribuição inesquecível.
Aconselho vivamente que o vejam durante esta Quaresma. E a Quaresma daí para a frente será vivida de outra forma, certamente.
Uma palavra especial para o papel de Nossa Senhora nestes momentos da paixão de Jesus, conforme o narra Mel Gibson.
Tocou-nos (à minha mulher e a mim) especialmente, a forma como Nossa Senhora, a Mãe, como a tratam carinhosamente todos os discípulos, acompanhou de perto todos os momentos do sofrimento solitário de Cristo. De certo modo, foi menos solitario porque acompanhado pela dor imensa da mãe que vê, que olha, impotente para o sacrifício impiedoso do seu Filho. Ao contrário de Maria Madalena não chora com lágrimas, mas percebe-se uma dor lancinante que a atravessa como a espada profetizada pelo velho Simeão.
A imensidão desta dor, misteriosamente, não a revolta, mas pacifica-a. Apesar disso, a dor é muito grande e a humanidade da representação chega ao ponto de percebermos um momento de hesitação. Porque é que não acaba tudo já?
Mas a memória da vocação de mãe e um cruzamento de olhares (sempre muito impressionantes em todo o filme) firma-A na Sua vocação co-redentora, confirmada pelo Seu Filho, quando, antes de expirar, entrega a Sua Mãe a toda a humanidade.
Ressalvando toda a desproporção, recordamos a morte das nossas filhas, a quem também afagámos o cabelo como Nossa Senhora fez com Jesus morto, recordamos os momentos de hesitação e de confirmação na  Fé.
Por isso é que foi preciso tanto sangue: para que nenhuma realidade humana por mais terrível ou dolorosa, ficasse de fora do abraço deste sacrifício amoroso que nos salva.
Vejam o filme, melhor, rezem o filme.
Um abraço amigo
Pedro Aguiar Pinto



"Era Preciso Descer a Tanto Sangue?"
Por KATHLEEN GOMES
Quinta-feira, 11 de Março de 2004
"Penso que um dia nos havemos de encontrar no céu para falar destas coisas." Foi assim que o padre Carreira das Neves, biblista, respondendo a uma questão sobre a representação de Judas em "A Paixão de Cristo", encerrou o debate que se seguiu à antestreia do filme, ontem, na Universidade Católica, em Lisboa. Sala repleta, cerca de 500 pessoas, entre "convidados VIP" e estudantes sentados nas coxias, para ver o novo filme de Mel Gibson, que se estreia hoje nas salas portuguesas: houve comoção, incómodo, mãos a cobrir os rostos. E houve avisos, à partida, sobre a possibilidade de "alguém se sentir mal", como "já aconteceu noutras sessões".
Depois das acusações quanto ao alegado anti-semitismo do filme, ainda antes da sua estreia nos EUA a 25 de Fevereiro, a questão mais polémica tem assentado na violência representada: as cenas extremadas de flagelação, um Cristo literalmente em carne viva na cruz. E ontem, houve quem abandonasse a sala durante a exibição.
Entre os presentes, contavam-se Maria Barroso, o constitucionalista Jorge Miranda, o ex-ministro do Ensino Superior Pedro Lynce, o economista e director da Rádio Renascença Francisco Sarsfield Cabral, e a deputada do PP Maria José Nogueira Pinto. No intervalo, as frases ouvidas variavam entre um "acho que a minha mãe vai querer ver este filme" e "é um filme de horror, não sei se te aconselho a ver".
No final, num debate que o juntou ao economista João César das Neves, o padre Carreira das Neves - "estamos aqui dois Neves", brincou - perguntava: "Era necessária esta crueza toda? Era preciso descer a tanto sangue?" "Aqui realmente é sangue", afirmou, "até sangue a mais, na minha perspectiva", antes de garantir porém, que "a crucificação era assim". Mesmo admitindo que em "A Paixão de Cristo" há "muita coisa que não está nos Evangelhos", Carreira das Neves considerou que "é um filme segundo a tradição da Igreja Católica", dentro de uma "teologia martirial" que remonta aos "quadros da Igreja". Chamou-lhe "o Evangelho segundo Mel Gibson", reconhecendo que os relatos sobre a crucificação de Cristo variam entre os quatro evangelistas. "E agora temos a crucificação segundo Mel Gibson."
João César das Neves, docente de Economia na Universidade Católica, começou por salientar que "este é um filme para cristãos". "Quem não foi educado na sociedade cristã não percebe porque é que atiram pedras àquela mulher [Maria Madalena]." Enumerando as razões da controvérsia em torno do filme, afirmou que a sua "violência dramática enquadra-se na violência actual no cinema." Segundo César das Neves, "o chocante aqui é haver um homem que apanha e não dá, uma pessoa que não responde, não protesta". Explicou que o anti-semitismo é "uma acusação normal", já que todos os filmes sobre Cristo estiveram envolvidos em polémicas idênticas, "até o pacífico filme de [Franco] Zeffirelli" (trata-se de uma série de televisão, "Jesus de Nazaré").
Falando da forma como o cinema tem filmado Cristo, o economista considerou que, ao contrário das produções anteriores, a abordagem de Gibson é religiosa e não política, até pela inédita representação do demónio, uma figura andrógina, associada a uma serpente. A diferença, segundo César das Neves, é esta: se se centrar na questão política, o culpado é Pôncio Pilatos, se se centrar na questão religiosa, o culpado é Caifás, o líder supremo do judeus ortodoxos que julgaram Cristo por blasfémia. Outra fonte de polémica apontada pelo economista é o facto de o filme ser "uma manifestação de fé" do realizador, sublinhando que Gibson filmou as suas próprias mãos a pregar Cristo (Jim Caviezel) à cruz.
No final da sessão, o padre Armindo Vaz, professor na Faculdade de Teologia da Universidade Católica, disse ao PÚBLICO que "A Paixão de Cristo" "é uma apresentação muito pessoal do realizador, que é fruto da formação cristã dele, mas também resultado de uma longa tradição cristã que acentuou muito os aspectos de crueldade e dor atroz". Admitindo que o filme é "muitíssimo" violento, este cónego receia que "todo este dolorismo, se pode enternecer, também pode desencadear uma reacção negativa - que é pensar que a religião cristã é isto". Recomendaria o filme? "Não gostaria que as pessoas se deixassem impressionar muito por este Evangelho segundo Mel Gibson. É dele."
Outro padre, Álvaro, 32 anos, acredita que o filme "vai ajudar a aprofundar a vivência da fé". "Não é com grandes discursos que conseguem captar atenção das pessoas, é com imagens bem filmadas, bem montadas." Ou, como completava, a seu lado, Sofia Lencastre, 20 anos, estudante: "A Igreja Católica ensina-nos as coisas de uma forma muito poética. O filme é bastante realista."

segunda-feira, 8 de março de 2004

Duas modestas propostas

João César das Neves

Diário de Notícias, 20040308

A gravidez indesejada é a questão central no debate do aborto. Realmente há poucas surpresas mais angustiantes e assustadoras. Mas esta questão é sempre tratada de forma apressada. O desejo da gravidez tem muito que se lhe diga. Por exemplo, nos momentos iniciais toda a gravidez é desejada. Pode não se saber que vem aí, mas naqueles instantes os envolvidos fazem avidamente tudo para que ela comece.

Depois, como em tantas coisas na vida, pode vir o susto, a aflição e, em alguns casos, a rejeição. Mas há uma altura em que toda a gravidez é indesejada. Cerca de 15 anos depois de começar, não há nenhuma gravidez que não tenha problemas. É que, mesmo com dores, dificuldades e alarmes, os primeiros cinco anos são os mais belos. Não há gravidez que nesse período não seja delicada, encantadora, ternurenta. O pior vem depois. Após dez, 15 anos, toda a gravidez se torna desobediente, teimosa, arrogante ou, pelo menos, atrevida e inconveniente.

Nessa altura, mais de uma década após o início, se alguém quiser praticar a interrupção voluntária dessa gravidez, as dificuldades são enormes. Só mesmo os muito ricos é que conseguem tratar do assunto sem consequências, e mesmo esses são muitas vezes apanhados. É nesse estado tardio da gravidez, e não nas primeiras semanas, que as mulheres (e homens) são condenadas à prisão sem piedade, apenas por se libertarem dela. Por medo disso, tantas mulheres pressionadas não têm remédio senão suportar a gravidez que não querem.

A minha modesta proposta é que as forças pela despenalização do aborto alarguem a extensão da actuação. Porquê limitar a permissão da interrupção voluntária da gravidez às insignificantes dez, 14 ou quaisquer semanas? Tudo isso é mínimo comparado com a real dimensão do problema. Até que a gravidez se complete e o embrião saia de casa, a mulher tem direito ao seu corpo, nível de vida, ao seu sono e paz, ao seu bem-estar! Avancemos até aos 18 anos!

Já agora, alarguem também o âmbito. Além do aborto, não podemos negar que há pedofilia clandestina. O melhor é legalizá-la em estabelecimentos autorizados. Assim as crianças terão tratamento higiénico e psicológico adequado.

Foi há 275 anos que Jonathan Swift apresentou a sua celebérrima «Uma Modesta Proposta». Também ele, como os abortistas, queria resolver o problema dos «pedintes do sexo feminino, seguidos por três, quatro ou seis crianças, todas em farrapos, importunando os passantes por esmolas (...), prevenir os abortos voluntários, e essa prática de mulheres matarem os seus filhos bastardos». Para o resolver, o irlandês fez investigações e concluiu «que uma criança jovem e saudável, bem criada com um ano, é um alimento muito delicioso, nutritivo e substancial, seja frito, assado, cozido ou refogado, e penso que poderá igualmente servir-se em fricassé ou guisado». Assim, a sua «modesta proposta para impedir que os filhos das pessoas pobres sejam uma carga para os seus pais e a nação, transformando-as em benefício para o público», é simplesmente usá-los na alimentação como outras carnes.

Neste nosso tempo pateta e mesquinho, é talvez preciso explicar que a proposta de Swift (tal como a outra) é sarcástica e mordaz. Porque hoje, com o uso de embriões abortados, clonagem terapêutica e outras infâmias, ela parece assustadoramente real. Aqui a História repete-se, mas primeiro como farsa e só depois como tragédia.

naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt