segunda-feira, 17 de novembro de 2003

Um padre

João César das Neves
DN, 20031117

Já não se publicam sermões. 
Depois de os padres terem passado no século XIX à categoria de ervas daninhas, abandonou-se o hábito de publicar sermões. Assim se perde para sempre um dos fenómenos culturais mais influentes da nossa língua.
Todos os dias, em milhares de locais, se prega em Portugal sobre o sentido da vida, os juízos morais, as virtudes práticas. 
Este grandioso património evapora-se, enquanto os etnógrafos se esforçam, por outros lados, a recolher os menores indícios do que chamam «cultura». 
Mas, felizmente, ainda há excepções. 
Acaba de sair um volume de homilias de um sacerdote lisboeta (Directo ao Assunto, Lucerna, 2003).
O Padre João Seabra é uma figura conhecida da nossa intelectualidade. Mas o que ele é, é sempre e apenas como padre. 
A sua fama provém sobretudo da sua frontalidade. Num tempo em 
que a Igreja se sente minoritária, às vezes acossada e complexada, o Padre Seabra nunca pediu desculpa por ser quem é ou licença para se meter na vida de quem encontra. 
Conheço muitos padres santos, fervorosos e cativantes. Mas com a sua «desfaçatez na Fé» só sei de outro, um polaco chamado Karol Wojtyla.
Os sermões deste livro não são habituais. 
Primeiro são curtos. Depois são muito coloridos, com humor e actualidade. Em terceiro lugar são desarmantes. 
Citam no mesmo fôlego a Astrofísica e a Inquisição (p. 81), Gore Vidal e S. Ambrósio (p. 89), S. Pedro e Krushchev (p. 107), Loretta Young e o bom samaritano (p. 201-202).
Os temas são muitos, mas o assunto é sempre o mesmo. Em todo o livro se sente a sua linha condutora: uma paixão intensa numa fidelidade férrea pela pessoa de Cristo e pela vida da Igreja. Com exemplos divertidos e sínteses iluminantes, o autor vai sempre directo ao assunto. E o assunto é sempre a Fé. O livro é, pois, uma notável mistura de catecismo, geopolítica, moral prática e história. Na clareza da argumentação, na contundência das comparações, sente-se o que tanto foi repetido nos milénios da Igreja: «Vieram para discutir, mas era-lhes impossível resistir à sabedoria e ao Espírito com que ele falava» (Act 6, 9-10).
No meio aparecem frases brilhantes, tiradas geniais que não esquecem: «Toda a moralidade cristã se reduz a isto. Usar todas as coisas tomando nota da Luz da qual são feitas» (p. 125). «Porque quem resolve, nos momentos decisivos, pensar só pela sua cabeça acaba por pensar pela cabeça da opinião comum» (p. 190). «Para se renunciar à santidade é precisa uma disciplina de ferro, porque a santidade oferece-se a nós todos os dias»(p. 210). «Misteriosamente, os que estão no Inferno não estão lá presos. Estão lá porque não querem sair de lá (...) o seu castigo é esse ódio eterno ao bem» (p. 272). «A Europa é o nariz da Ásia. Se a Ásia se assoa, a Europa desaparece. (...) A Europa é o Cristianismo ou não é nada» (p. 277). «Meus amigos, meus irmãos, vivei cada instante como se fosse o primeiro instante, como se fosse o último instante, como se fosse o único instante» (p. 211).
É assim o autor. É assim este livro.À questão principal, ele mesmo respondeu logo na sua primeira missa: «O bom gosto do nosso mundo perguntará, escandalizado, se eu me considero, então, detentor da única verdade. E eu respondo que não. Não sou detentor da verdade. Mas sou detido por Ela, sou possuído, conduzido, impelido e guiado por Ela. Não sou senhor da verdade, mas sou servo da Verdade» (p. 13).
naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

Um padre

Queridos amigos:

Hoje, dia de Santa Isabel da Hungria, a Constança faz 12 anos. Esta crónica do João Luís César das Neves testemunhando a sua experiência de filiação com o "nosso" Padre João, é o melhor presente de anos que a Constança poderia ter.

A Constança interrompeu-lhe várias destas homilias com a sua voz a despropósito. Porém, habituaram-se um ao outro. A Constança porque lhe reconhecia a voz; o Padre João porque olhava para ela com o espanto perante o mistério da total dependência. Entretanto, nós guardávamos tudo isto no nosso coração.

Ser exactamente hoje que esta crónica é publicada não é uma mera coincidência. É, por isso, um presente de anos.

Obrigado, Padre João, por nos educar na Fé.

Obrigado, João Luís, por nos ajudar tão eloquentemente a recordar isto mesmo.

Parabéns Constança.

Pedro Aguiar Pinto

 

Um padre

João Luís César das Neves

Diário de Notícias, 20031117

Já não se publicam sermões. Depois de os padres terem passado no século XIX à categoria de ervas daninhas, abandonou-se o hábito de publicar sermões. Assim se perde para sempre um dos fenómenos culturais mais influentes da nossa língua.

Todos os dias, em milhares de locais, se prega em Portugal sobre o sentido da vida, os juízos morais, as virtudes práticas. Este grandioso património evapora-se, enquanto os etnógrafos se esforçam, por outros lados, a recolher os menores indícios do que chamam «cultura». Mas, felizmente, ainda há excepções. Acaba de sair um volume de homilias de um sacerdote lisboeta (Directo ao Assunto, Lucerna, 2003).

O Padre João Seabra é uma figura conhecida da nossa intelectualidade. Mas o que ele é, é sempre e apenas como padre. A sua fama provém sobretudo da sua frontalidade. Num tempo em que a Igreja se sente minoritária, às vezes acossada e complexada, o Padre Seabra nunca pediu desculpa por ser quem é ou licença para se meter na vida de quem encontra. Conheço muitos padres santos, fervorosos e cativantes. Mas com a sua «desfaçatez na Fé» só sei de outro, um polaco chamado Karol Wojtyla.

Os sermões deste livro não são habituais. Primeiro são curtos. Depois são muito coloridos, com humor e actualidade. Em terceiro lugar são desarmantes. Citam no mesmo fôlego a Astrofísica e a Inquisição (p. 81), Gore Vidal e S. Ambrósio (p. 89), S. Pedro e Krushchev (p. 107), Loretta Young e o bom samaritano (p. 201-202).

Os temas são muitos, mas o assunto é sempre o mesmo. Em todo o livro se sente a sua linha condutora: uma paixão intensa numa fidelidade férrea pela pessoa de Cristo e pela vida da Igreja. Com exemplos divertidos e sínteses iluminantes, o autor vai sempre directo ao assunto. E o assunto é sempre a Fé.

O livro é, pois, uma notável mistura de catecismo, geopolítica, moral prática e história. Na clareza da argumentação, na contundência das comparações, sente-se o que tanto foi repetido nos milénios da Igreja: «Vieram para discutir, mas era--lhes impossível resistir à sabedoria e ao Espírito com que ele falava» (Act 6, 9-10).

No meio aparecem frases brilhantes, tiradas geniais que não esquecem: «Toda a moralidade cristã se reduz a isto. Usar todas as coisas tomando nota da Luz da qual são feitas» (p. 125). «Porque quem resolve, nos momentos decisivos, pensar só pela sua cabeça acaba por pensar pela cabeça da opinião comum» (p. 190). «Para se renunciar à santidade é precisa uma disciplina de ferro, porque a santidade oferece-se a nós todos os dias»(p. 210). «Misteriosamente, os que estão no Inferno não estão lá presos. Estão lá porque não querem sair de lá (...) o seu castigo é esse ódio eterno ao bem» (p. 272). «A Europa é o nariz da Ásia. Se a Ásia se assoa, a Europa desaparece. (...) A Europa é o Cristianismo ou não é nada» (p. 277). «Meus amigos, meus irmãos, vivei cada instante como se fosse o primeiro instante, como se fosse o último instante, como se fosse o único instante» (p. 211).

É assim o autor. É assim este livro.

À questão principal, ele mesmo respondeu logo na sua primeira missa: «O bom gosto do nosso mundo perguntará, escandalizado, se eu me considero, então, detentor da única verdade. E eu respondo que não. Não sou detentor da verdade. Mas sou detido por Ela, sou possuído, conduzido, impelido e guiado por Ela. Não sou senhor da verdade, mas sou servo da Verdade» (p. 13).

naohaalmocosgratis@fcee.ucp.pt

sábado, 8 de novembro de 2003

«Habemus Papa»

Expresso, 2003-11-08
PARA lá do sensacionalismo repetitivo e do alarmismo enfadonho a que a informação televisiva nos habituou, chamou a minha atenção o modo, tão típico do nosso tempo, como o recente agravamento do estado de saúde de João Paulo II foi abordado pelo telejornais.
Inicialmente havia, no relato das notícias, um tom subliminar de quase escândalo, como se a doença do Papa viesse demonstrar que a Igreja era imperfeita e que afinal o Papa não era divino, era um mortal como os outros. As perguntas sobre os assuntos aos altos dignitários da Igreja eram feitas com a pouco segura e usual agressividade, como se a súbita constatação de que o Papa poderia morrer viesse destapar uma carapuça, revelar que a mensagem de eternidade que a Igreja transmitia era afinal publicidade enganosa.
A coincidência com a comemoração do 25º aniversário da eleição de João Paulo II acabou por dar outra perspectiva aos noticiários, passando-se aos balanços, um pouco em tom final, do seu pontificado, intervalados com vácuas especulações sobre o seu sucessor e o que este teria de fazer para satisfazer a clientela e adaptar a fé ao gosto dos fiéis.
A ocasião forneceu contudo apreciações mais profundas do percurso de um dos mais marcantes protagonistas das mudanças que se deram nos finais do século XX, mas também e, sobretudo, de um dos mais afirmativos chefes da Igreja Católica de todos os tempos.
Sublinhou-se a sua luta pela liberdade, no combate a um regime que aguilhoava os povos, sacrificados a mais um mito redentor, desta vez pseudo-científico. Elogiou-se a sua obstinada e generosa defesa da dignidade do Homem, em todas as situações, sem desculpas e sem excepções. Louvou-se a denúncia das injustiças sociais, a coragem na oposição à violência.
Registou-se a dificuldade em classificá-lo segundo os parâmetros convencionais, apontando-se a sua experiência política, o progressismo social e o conservadorismo doutrinário, afinal uma forte afirmação de coerência. Ele é o homem que combateu o comunismo em nome da liberdade; que luta pelos oprimidos e humildes contra os fortes e prepotentes; que não hesitou em atribuir à intervenção divina a sua salvação do atentado que o vitimou num dia 13 de Maio; que escolheu as comemorações do seu jubileu de prata para beatificar a figura, tão ilustrativa das insuportáveis injustiças da sociedade moderna, e a que o seu pontificado tanto se identifica, da Madre Teresa de Calcutá. Ele não cedeu aos ventos da moda, não hesitou em proclamar a verdade da sua fé, mesmo sendo impopular - e por isso se tornou um ídolo da juventude. Como Cristo no Templo, ele veio para dividir, com a misericórdia do perdão, mas com a firmeza da fé, tão incómoda e difícil numa sociedade que se julga, no racionalismo, na ciência e - mais preocupantemente - na técnica, detentora da verdade e capaz de domesticar o mundo e a vida.
Mas todos esses comentários, certos e justos, tenderam a considerar a vida do Papa um pouco já no passado e não se terá salientado suficientemente o alcance do testemunho que, com o seu visível e angustiante sofrimento físico, está no presente a dar.
Num mundo onde, segundo a feliz frase de Chomsky - sobressaltem-se os puristas do pensamento único, li-a no «Figaro Magazine», citada por um eurodeputado gaullista - a mercantilização de todos os aspectos da vida está a criar um novo totalitarismo, onde as pessoas valem mais pelo que têm do que pelo que são, onde a condescendência própria só tem paralelo na implacável exigência com os outros, onde os valores éticos se moldam às conveniências, onde o expediente é mais apreciado que a integridade. Num mundo onde se atribui aos pobres e aos fracos o epítome de excluídos, cruelmente apropriado porque a sociedade os rejeita. Num mundo, enfim, onde a doença envergonha e se esconde a morte, porque destoa do hedonismo dominante, o Papa vem afirmar, com o seu exemplo, que a dignidade humana não tem fronteiras. Persiste além da doença, além da humilhação, além do sofrimento, além da morte. Que os pobres, os humildes, os doentes, os que sofrem, dela partilham inteiramente. E que todos sem excepção se têm de resignar à condição humana.
João Paulo II sobrepõe à doença e à dor a sua força espiritual para nos transmitir este testemunho inquietante e subversivo no mundo em que vivemos, talvez o mais forte do seu Pontificado. O qual é, por isso, bem presente. Foi essa a notícia que não vi nos telejornais. Porém, a mais sensacional e alarmante.
Embaixador