sexta-feira, 18 de abril de 2003

As Sete Palavras do Senhor

JOÃO BÉNARD DA COSTA
Público Sexta-feira, 18 de Abril de 2003

1 - "O Cristo na Cruz! Ninguém conseguirá jamais perceber este mistério!"
Esta frase de Romano Guardini, que li há muito longo tempo, sempre a retive sem perceber bem porquê. Os mistérios só são mistérios porque ninguém os percebe e porque é estulto aquele que os tenta perceber. Cristo na Cruz, para qualquer cristão, é um mistério. Mas Cristo ressuscitado também. E, na esfera do mistério, não cabe o maior nem o menor. Quando não percebo, não posso perceber o tamanho do que não percebo. Se abro a porta para uma escuridão total, nunca poderei saber se essa escuridão é imensa, ou atravessável em sete passos. A não ser que me enfie nela, o que não posso fazer, pois que não tenho sustentação possível.
Porque é que então a dupla exclamação de Guardini tanto se me colou?
Para lá do que análises ou psicanálises possam descobrir (e nunca acreditei que descobrissem muito), julgo que o grande susto vem da familiaridade da imagem com a incognoscência da ideia.
Se nenhum de nós viu nunca alguém a ser pregado numa cruz, alguém a morrer numa cruz (banido o suplício, há muitos séculos, dos usos e costumes de qualquer reino), quase todos nós fomos nascidos e crescidos sob o signo da Cruz, sob o sinal da Cruz. E só muito de longe em longe - às vezes de tão longe, de tão longe - nos damos conta de que, se esse sinal é tão esmagadoramente representativo, é porque na Cruz (uma cruz que nem sequer estamos certos de corresponder à figura geométrica que a ela associamos) morreu, há quase dois mil anos, um homem que alguns milhares de milhões de pessoas acreditaram ou acreditam que é Deus.
Deus pregado numa cruz? Deus morto numa cruz? Se conseguirem ler estas duas perguntas como se nunca as tivessem ouvido, como se fosse a primeira vez que alguém as pergunta, talvez se aproximem do que Romano Guardini quis dizer. Hoje, Sexta-Feira Santa do ano de 2003, talvez seja um dia adequado à experiência que vos proponho.
São Paulo disse-nos (Filipenses II, 6-8) que "Jesus, existindo na forma de Deus, não julgou ser igual a Ele. Mas aniquilou-se a Si mesmo, tomando a forma de escravo e tornando-se semelhante aos homens, e, sendo reconhecido por condição, como homem, humilhou-se a si mesmo, feito obediente até à morte, até à morte da cruz!" Como é que Deus não julgou ser Deus? Como é que Deus se pode humilhar a si próprio? A quem obedece Deus, que, por natureza e essência, não pode obedecer a ninguém? E, sobretudo - chego sempre à minha citação e à minha radical suspensão -, como pode morrer Deus, de mortal morte na Cruz? Porque a condição divinal foi trocada pela condição mundanal, o Filho de Deus assumindo-se como Filho do Homem? É essa a nossa fé, mas também é esse o nosso absurdo. Não é só levar o credo até ao cabo, na pasmosa expressão de Gil Vicente no "Auto da Barca do Purgatório", é ultrapassar qualquer cabo. "Credo quia absurdum". Hoje, entre a hora sexta e a hora nona, comemora-se o aniversário litúrgico da Morte de Deus. Nunca me admirou que tivesse ficado tudo tão escuro, como desde Amos fora predito, tão escuro que no apócrifo Evangelho de Pedro se diz que os judeus tropeçavam uns nos outros, sem encontrar o caminho para casa. Luto por Deus, luto pelo Filho Único. "E farei deste dia, até ao fim, o dia da amargura" (Am 8, 10).
2 - "O Cristo na Cruz!"
Todos os evangelhos são muito parcos na descrição dessas horas que nos perderam e que nos salvaram. É verdade que, de todos os discípulos, "só aquele que o Senhor amava", como S. João a S. João se chama, ficou junto d'Ele todo esse tempo. E o quarto Evangelho é o que nos dá mais pormenores, como, noutra perspectiva, o Evangelho segundo S. Lucas.
Em Marcos e Mateus, como notou Jean-Noël Aletti, nesse extraordinário livro que se chama "L'Art de Racconter Jésus - Christ", Jesus morre sozinho, abandonado pelos discípulos e só observado, de longe, por algumas mulheres. Mas Jesus está também silencioso. "Injuriado e provocado, mas silencioso perante os ultrajes." A única palavra desses Evangelhos é o brado que os dois evangelistas conservam em aramaico: "Meu Deus, Meu Deus, porque Me abandonaste?" Deus desesperando de Deus? Se houvesse desespero, não haveria invocação e sobretudo nunca Deus diria "Meu Deus". O adjectivo possessivo é, neste caso, o abissal, porque substantivo e adjectivo são um só, porque o "meu" é tão mais d'Ele quanto é Ele. A variação do apócrifo de Pedro ilumina, nesta passagem, o que nela pode ser iluminado. Nesse texto, o Senhor não se dirige ao Pai, mas a Si Próprio: "Minha força, minha força, tu me abandonaste." E, depois, dando um grande brado, expirou.
3 - Em Lucas, pelo contrário, chegado ao lugar dito do Crâneo (o Gólgota) e crucificado entre dois ladrões, a narração começa com a palavra de Jesus: "Pai, perdoa-lhes que não sabem o que fazem." Ela é o nosso mais absoluto perdão, pois que os céus e as terras passarão mas a Palavra do Senhor não passará e nessa palavra (oculta sob a forma de pedido) todos somos perdoados, porque nunca soubemos nem saberemos o que fizemos ou faremos. Ou, dito de outro modo, se quem pregou Deus na Cruz é perdoado, quem o poderá não ser?
Como nos outros sinópticos, segue-se breve descrição das injúrias e sarcasmos. À soldadesca e à populaça, junta-se, no entanto, um dos ladrões igualmente crucificados, mas que o injuria com uma réstea de esperança: "Se és Cristo, salva-te e salva-nos a nós também." Mas o outro ladrão censura-o e diz-lhe esta coisa espantosa: "Nem a Deus temes, tu que sofres da mesma pena?" Para aquele que a história viria a conhecer como o Bom Ladrão, Deus está ao lado dele na Cruz. Foi o único homem que viu Deus na Cruz e que não o tomou por impossível. Tamanha fé - eu creio que é o maior acto de fé de que nos foi dado conhecimento - merece a recompensa: "Em verdade, em verdade te digo que hoje mesmo estarás comigo no Paraíso." Foi o único homem que morreu certo da sua salvação, porque foi o único homem que existiu que não duvidou de Deus crucificado, nem duvidou da realidade do reino dele.
Mas, ao Mau Ladrão, Deus nada respondeu e nunca lhe disse que o recusaria no Paraíso.
A terceira das palavras relatadas por Lucas é também uma palavra de comunicação. "E, num grande brado, Jesus disse: " Pai, nas Tuas mãos deponho o meu espírito."
3 - No Evangelho de João, a quinta palavra que, na Cruz, do Senhor nos ficou, é a que designa, para o discípulo que amava, Maria como mãe dele ("Eis a tua mãe") e a que confia a Maria o discípulo amado ("Mulher, eis o teu filho"). Na Terra, a Mãe de Deus achava um outro filho, na Terra, João é confiado aos cuidados da Mãe de Deus.
Depois, Jesus disse a palavra talvez mais enigmática: "Tenho sede." João explica-nos que a disse para que as Escrituras se cumprissem. Mas Eckhart, o místico, num texto sobre o recolhimento, recordou que ter sede é abrir os peitos. "A imagem da coisa a beber não o deixa, enquanto a sede durar não o deixa. E quanto maior for a sede, mais interior, presente e contínua é a imagem da coisa a beber." De Si Próprio, muito antes dessa tarde escura, o Filho do Homem tinha dito: "Se alguém tem sede, venha a mim e beba."
Por isso, depois de ter bebido do vinagre, Jesus disse: "Tudo está consumado." E, baixando a cabeça, entregou o espírito.
São Bernardo, num hino que lhe é atribuído, demora-se a olhar-Lhe o rosto e diz que "os Altíssimos adoram essa palidez". Quem são esses Altíssimos, o texto não explica.
Mas só podemos pensar o dia de hoje, se o pensarmos como a perfeição de uma esfera admirável, porque, como disse frei Heitor Pinto, "O princípio une-se com a fim." "Esta é a perfeita figura, este é o círculo divino (...) este é o filho que é padre da madre; este é o que, nascendo em tempo, foi antes do tempo e fez o tempo; este é o que sendo impossível se fez possível e sendo eterno se fez mortal."
Podemos então começar a ver a Cruz fundir-se com a Árvore. A Árvore da Vida, a Árvore da Vera Cruz.
E termino como se deve, ou seja como comecei. "Ninguém conseguirá jamais perceber este mistério!" Esta é a Sexta-Feira Santa, Sexta-Feira da Paixão.