segunda-feira, 1 de janeiro de 2001

Boas notícias

Boas notícias

João César das Neves

In: DN, 2001.01.01

A primeira grande novidade do milénio foi o aparecimento do GoodNews. O diário apresentou-se com o propósito de "dar apenas e sempre boas notícias", declarando olhar a actualidade do ponto de vista positivo e construtivo, sublinhando o virtuoso, o amável, o heróico, o bom. "No panorama mediático actual", dizia o seu primeiro editorial (publicado noutro jornal, por tratar de más notícias), "domina o chocante, o trágico, o dramático, o mau. Quando algo corre bem deixa, por isso mesmo, de ser notícia. Só os desastres e guerras são referidos. A bondade e a paz apenas aparecem quando falham. Todos os jornais, mesmo os mais clássicos, são dominados por esta visão perversa. Em vez do provérbio no news is good news (se não há notícias é boa notícia), a prática passou a ser good news is no news."

A nova linha editorial foi muito contestada pelos intelectuais como "romântica, idealista, delicodoce". Mas o jornal recusava ficções ou distorções imaginativas. Publicava a verdade e apenas a verdade. Só que a publicava com atenção ao positivo e não ao negativo. O facto ficou provado quando se deu a derrocada do arranha-céus na cidade. As agências, jornais e televisões enchiam-se com sangue, lágrimas e acusações. O GoodNews referia o surpreendente número de sobreviventes num desastre daquela dimensão e louvava o trabalho dos bombeiros e hospitais da zona. Notava a sorte de o prédio ter caído a meio da manhã, quando estava bastante vazio, e para as traseiras desertas, em vez de derrocar na avenida, em hora de ponta. E relatava o feito de um rapazinho, que saltara do segundo andar com a irmã bebé ao colo, acto que ficara esquecido nos outros jornais. A sua circulação aumentou em flecha.

O sucesso fez crescer as críticas. Alguns afirmaram que o GoodNews era uma nova versão dos tradicionais "jornais da situação". De facto, o Governo louvou-o por "finalmente alguém dar atenção ao muito de bom que há no país", enquanto a oposição o acusava de "simplismo, seguidismo e ingenuidade". Mas a pouco e pouco começou a notar-se que a actividade política estava quase ausente do periódico. Considerava a maior parte desse debate irrelevante e inconsequente, e muitas das alegadas "boas notícias" do Governo mostravam-se promessas irrealistas e desinteressantes. As que chegavam a ser publicadas, nunca o eram da forma que o Executivo pretendia. O GoodNews mostrava, pelo contrário, uma evidente preferência por relatar a vida da sociedade, a forma humilde e imaginativa como as pessoas vão resolvendo as suas dificuldades, mesmo as mais dramáticas. Em vez da busca desenfreada dos "podres" e do culto do "anti-herói", descreviam-se serenamente os bons exemplos. Recusava a pose pomposa de justiceiro mediático em busca de escândalos, que só aumenta a injustiça. Preferia relatar a conduta virtuosa perante os obstáculos. Na economia, acompanhava o desenvolvimento estrutural e iniciativas de mérito, desprezando o saltitar financeiro e o apelo permanente à crise.

De repente, o país tomou consciência da enorme quantidade de iniciativas e instituições de solidariedade e dos seus grandes benefícios. Tornaram-se famosos nomes e caras de muitos "heróis do quotidiano", que insistiam em fazer o bem em condições difíceis. Como se dizia num dos artigos, "é impressionante quanto bem existe entre nós, e como resiste ao mal, mesmo quando o mal é tão forte".

Na classe dos profissionais da informação, o GoodNews acendeu uma longa e acesa polémica. Alguns jornalistas influentes declararam-se a favor do periódico, mas a maioria foi muito crítica. "Trata-se de uma publicação ideológica, que pretende inculcar uma visão doutrinal aos seus leitores", diziam muitos. Mas que visão era essa, não era consensual. Apelidado por muitos como "conservador", o GoodNews era atacado pelas forças conservadoras por não denunciar o mal deste mundo progressista. Uns chamavam-lhe "epicurista" e outros "cristão". Não faltavam, até, os que o apelidavam de "tentativa maçónica de restaurar o comunismo" ou de "neonazismo encapotado e populista".

O director do jornal, entrevistado na televisão, respondeu a estas críticas de forma bonacheirona. "É evidente que temos uma visão ideológica do mundo. Tão parcial como a de todos. Perante um facto, um acontecimento, uma realidade, o ser humano observa-o selectivamente, raciocina criteriosamente e decide o que pensar sobre ele. Tudo isto é feito a partir dos princípios de análise, dos preconceitos de avaliação que cada um de nós tem. A única publicação realmente neutra que conheço é a lista telefónica. Só aí não existe uma opinião para observar o mundo e decidir o que dizer e como.

A nossa diferença não está aí. A comunicação social moderna acredita, por vezes de forma inconsciente, que só consegue agradar e atrair a atenção dos leitores de forma bombástica ou sedutora. Os instrumentos que todos usam, dos jornais aos politicos e anunciantes, é a adrenalina e a líbido. A sua atitude é encarar o público como um animal, que tem de ser agredido ou assustado, surpreendido ou acariciado. Nós tratamo-lo como uma pessoa civilizada, que olha o mundo de forma serena, positiva e inteligente, que luta com coragem e esperança contra aquilo que pode mudar e se conforma sabiamente com o que tem de suportar. E tenta sempre adaptar-se, fazendo o melhor possível. Estamos conscientes dos erros e dos problemas, mas, em vez de resmungarmos e de os denunciarmos, apresentamos bons exemplos de solução. Não nos indignamos hipocritamente, mas procuramos compreender e ajudar.

O mundo é um sítio extraordinário; e o mais extraordinário é o ser humano. E o mais extraordinário no ser humano é a capacidade de virar o mundo para o bem. Vivemos tão pouco tempo aqui. Porque não passá-lo a ver e a fazer o bem ? Por todo o lado há pessoas a trabalhar para aumentar a felicidade. Nós, com humildade, queremos relatar isso. Só o bem existe. O mal é ausência. O bem é verdade. O mal é mentira."

João César das Neves assina esta coluna à segunda-feira